ITANEL ROMANELLI FERRAZ, ingressou
na ACASP em 1975, aos 14 anos. Em 1976, Ano comemorativo de Beethoven, Itanel
experimentou seu maior desafio ao apresentar juntamente com a ACASP a obra "Oratório
Jesus no Monte das Oliveiras" no Teatro Municipal de São Paulo, sob
a regência do maestro Eleazar de Carvalho. "Eu era membro do Coral
de Adolescentes do IAE, desde então cantei nos dois corais até que
o Coral de Adolescentes acabou - aí fiquei só na ACASP" diz.
ACASP: Estar sob a regência do maestro Eleazar trouxe algum sabor
especial?
Itanel: Claro que sim. Ele era uma pessoa de aparência sisuda
- cara de bravo, intimidando os "comandados" e tirando o máximo
deles. Nós éramos um grupo de adolescentes (e até alguns
juvenis), sendo assim, o maestro Flávio juntamente com o Pr. Gerson Pires
(maestro do Coral de Adolescentes), faziam "lavagem cerebral", preparando-nos
pra enfrentar a fera. Tínhamos um sentimento de admiração
e certo orgulho de estarmos participando com alguém "famoso".
No primeiro ensaio, o maestro Eleazar veio acompanhado do pianista da OSE (se
não me engano o nome é Oleg - ou algo parecido). Ao entrar na
sala onde ensaiávamos (uma classe do prédio de Enfermagem, tipo
de anfiteatro com cadeiras colocadas em níveis diferentes), olhou-nos
e saiu, levando o maestro Flávio (no final, o maestro Flávio nos
contou sobre a conversa que eles tiveram: "é isso aí que
vai participar? Essa molecada?", perguntou o maestro Eleazar. "Sim",
foi a resposta do maestro Flávio. Então o maestro Eleazar finalizou:
"Ok! Então você rege e eu assisto." Ao voltarem para
a sala, o maestro Flávio conversou rapidamente e começou a ensaiar.
Após dois minutos de ensaio, o maestro Eleazar se levantou e pediu ao
maestro Flávio deixá-lo tocar dali em diante. Foi muito legal,
pois demos conta do "pepino". A molecadinha era realmente "da
pesada" e gostava mesmo do negócio.
O ano seguinte tinha como atração o "Festival de Inverno
de Campos do Jordão", foi quando o maestro Flávio nos convocou
a participar. Alguns de nós topamos e fomos fazer o "teste"
para participar. Tivemos que cantar, lendo música para o maestro Diogo
Pacheco. Nós passamos no teste, e como bolsistas, passamos o mês
de julho de 1976 em Campos do Jordão com um grupo muito bom de professores,
cantando e cantando. Foi muito bom mesmo.
ACASP: Tinha que conhecer teoria então...
Itanel: Bem... Contamos com um "empurrãozinho amigo..."
Não estávamos com a "bola toda" pra tudo isto não.
Mas valeu muito. Foi lá que cantamos pela primeira vez a "9a Sinfonia
de Beethoven" no encerramento do Festival.
ACASP: Quem eram os moleques?
Itanel: eu, Gilson Araújo, Flávio Marquat Garcia e Gilson
Cornette, este último acabou não ficando na ACASP. Acho que como
desafio naquela época foi o maior e mais pra frente, é claro,
enfrentamos algumas frias... aqueles convites de 6ª feira pra cantar em
alemão na terça ... e assim por diante. Sabe com é... o
maestro Flávio não sabia dizer "NÃO", pois entendia
que tudo era uma forma de levar o nome de Jesus aqueles que talvez de outra
forma não ouviriam... isto aconteceu muitas vezes...
ACASP: Em matéria de música, o que foi mais difícil?
Itanel: Acho que em matéria de música, pra mim, a mais
difícil foi o "Chorus No 10 de Villa Lobos". Foi uma loucura,
pois aquele grupo se acostumara a cantar coisas tradicionais e de repente se
depara com uma peça "moderna" (século 20) "sem
pé nem cabeça..." Foi uma luta... De começo havia
muitas reclamações: "Isto não é coisa pra aceitarmos",
diziam alguns. Como era uma peça secular, não podíamos
ensaiar aos sábados, logo, ensaiávamos aos domingos (dias dos
ensaios na casa do Gilberto Garcia "futebol")... Aí a competição
era boa... mas, o Maestro Flávio "macaco velho"... ía
"ensaiar" na bola de manhã e pegava o pessoal pela "orelha"
pra ir ao salão de jovens da Igreja do Campo de Fora (onde ensaiávamos
na época)... pra ensaiar o Choro 10. Mas após um mês aproximadamente,
alguns já estavam gostando da coisa... Os ensaios duraram seis meses
seguidos no primeiro semestre de 1978. Após seis meses tivemos o primeiro
ensaio com a orquestra, e aí sim a paixão tomou conta, pois o
som da orquestra excitava a todos os "nervos brasileiros". O ritmo,
a ginga, aquilo começou a ferver dentro de cada um. Amamos a peça.
Fizemos várias apresentações em várias cidades e
também na abertura do Festival de Campos do Jordão, em 1978...
foi maravilhoso. Participamos também de outras peças como: Nanie
de Brahms, Overture 1812 de Tchaikovisky, Paixão Segundo São Mateus
de Bach, Requiem de Mozart e Requiem Alemão, são as que me lembro.
ACASP: E quanto à liturgia na IASD?
Itanel: "Cantata da Rainha Ester" (fizemos com encenação
- eu era um dos soldados). "A Cidade Santa" (maravilhosa - sei quase
tudo ainda hoje). "Hinos Triunfantes" (marcou muito, pois foi logo
que voltei das minhas férias forçadas (enfarte) e também
porque foi durante o tratamento do Danny). "O Fim e o Novo Começo"
(resumo das mais lindas, significativas e difíceis músicas da
ACASP - o melhor de todos). O "Quão Grande és Tu" também
marcou bastante... a "Cantata de Natal" (que eu levei para o maestro
em 1984)... e outros programas de Natal... tudo isto marcou muito e me "mata"
de saudades... aliás, sábado passado (dia 03/07) na Lapa foi maravilhoso.
Fizemos "O Fim e o Novo Começo" e à tarde o "Quão
Grande és Tu". Matei as saudades!
ACASP: Curiosidades sobre viagens...
Itanel: Quanto às viagens, são muitas as recordações.
Acho que a mais antiga foi o acampamento em Itaipava. Lembro-me que eu, o meu
irmão (Wilson), Flá e Ro ficamos em uma barraca junto da cozinha
(mas não fomos nós que atacamos a cozinha). A nossa brincadeira
mais legal foi as "bombas relógio" (rojões com pavios
pra demorar a explosão) que fizemos. Colocamos em lugares estratégicos,
de madrugada, é claro. Na manhã seguinte, as caras de sono e de
"santos" como se todos não soubessem. Mas aí entra o
Nilvan com o filho nos ombros, carregando um rojão estourado. Aí
todos brincavam dizendo que havia sido ele (o Nilvan), mas a culpa é
sempre da molecada (o que não deixa de ser verdade). Outra curiosidade
foi a "turma dos sem-banho". O pessoal que viajou a noite toda pra
cantar na igreja no Rio de Janeiro. Coitadas daquelas becas... e de quem cantava
por perto "delas". Mas esta viajem do Rio teve um outro evento muito
legal: foi a armadilha que alguém (não fomos nós... eu
prometo!) fez no banheiro. Uma noite fria, quando o Enoque entrou no banheiro
e ao abrir a porta, tomou o maior banho gelado da vida dele. Um balde de água
gelada caiu sobre ele.. (ele ficou "muito bravo")... tadinho... acordou
legal! E é claro, não posso deixar de contar que o Clayton deixava
a nossa canela "roxa" com os chutes da "botinha" Kiker que
ele usava naquela época.
ACASP: Quando da sua adolescência, você procurou se espelhar
em alguma pessoa? Se sim, quais pessoas?
Itanel: acho que o normal de todo adolescente é encontrar um "líder"
ou "conselheiro" a quem imitar, pelo menos pra mim foi. O Pastor Gerson
Pires de Araújo foi o meu. Aliás, gostaria que o meu filho tivesse
a mesma oportunidade. A dedicação dele a este grupo foi maravilhosa.
ACASP: A beca azul é especial?
Itanel: É especial, pois mostra o nosso destino; o céu!
ACASP: Você aprecia algum outro estilo de música que não
seja Sacra? Religiosamente falando...
Itanel: a Sacra é claro que não se discute. Quanto a outro
tipo, gosto da música gospel moderada, mas não pra ser apresentada
na igreja. Ainda acho que o ambiente da igreja "exige" algo compatível
e não consigo ver compatibilidade de qualquer outro estilo musical que
não seja a Sacra.
ACASP: Conhece alguém que se converteu por intermédio
das músicas apresentadas?
Itanel: Já ouvi muitas contadas. Alguém nos contou que
uma família inteira se interessou por após assistir a ACASP em
uma igreja na Zona Leste de São Paulo. Sabemos que Deus usa desta ferramenta
criada por Ele pra "preparar o terreno do coração"das
pessoas para ouvirem da maravilhosa mensagem do sacrifício de Jesus pela
raça humana. Acredito que a razão principal da existência
da ACASP é ser este instrumento nas mãos de Deus. Muitas vezes
penso sobre o por que de não termos gravado CDs; isto faria com que a
ACASP pudesse atuar de forma mais eficiente, mas a minha conclusão é
sempre a mesma: como sempre deixamos Deus dirigir o coral, Ele conhece o momento
e as formas de atuação. Deus tem Seus planos. Ele determinará
a hora de se gravar (ou não) um CD. O lema da ACASP (onde se canta com
amor), descreve exatamente o que está aqui dentro (no meu peito): muito
amor pelo trabalho de Deus através da música.
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